sexta-feira, 28 de dezembro de 2007



PRECISÃO
(Clarice Lispector)

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada em Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em Teus braços
meu pecado de pensar.


Aqui estão unidos dois poemas: a primeira parte também pode ser encontrada com o título “A perfeição”; não sei de que forma Clarice o nomeou, ou se ela o nomeou, mas prefiro “Precisão”, além do sentido de coisa precisa, exata, correta, pode significar ainda “precisar muito”, uma forte necessidade de alguma coisa, um grande precisar; a segunda parte é o poema “Meu Deus, me dê a coragem”, da mesma autora. Juntos eles adquirem maior força, mais sentidos, que deixarei por comentar.

Encerro o mês com essa escritora que eu gosto muito por romper com padrões, modelos estabelecidos, tendo a coragem de escrever sem rédeas, nos colocando sem fórmulas prontas ou escudos intelectuais diante das novidades da vida, para sentirmos com mais intensidade as surpresas que o viver nos proporciona.
Desejo a todos um novo ano realmente novo!
Ou feliz, mesmo que não seja muito novo!
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007


Foto de Rarindra Prakarsa


A um amigo

Um dia um amigo me abriu seu coração, eu era pura dor, e achei aquilo grande demais pra minha pequena força, meu desolado abrigo... Não acolhi sua bela revelação, seu princípio de mudança...

Agora peço desculpa, amigo, sou humana, incompleta, ainda fraca, subindo a passos miúdos os degraus da perfeição... Estou longe de ser sábia, assim como você, sou só inteligente... O que, no entanto, nunca me bastou...

Perdão, amigo, por não ser melhor que a sua pessoa, mais crescida, mais madura... Sou somente humana, com todas as características boas e ruins de qualquer ser humano... Não me abomino por isso, admito, o que pode lhe incomodar, apesar de tentar lutar contra o mal que há em mim...

Não é fácil falar sobre mágoas, para amenizá-las, só falando sobre elas podemos saná-las... Pedir desculpas também não é fácil, assumir os próprios erros, os enganos, isso é se perceber falível, seguindo um caminho incerto, duvidoso... Dúvidas, meu amigo, não são meros sinais de insegurança, não devemos eliminá-las; elas nos alimentam a vida, nos mantêm vivos, ávidos, intensos, criativos... Certezas não fazem ninguém criar, não há por que...

Só a dúvida incita, instiga, provoca, atiça um fogo que pode destruir tudo, sim, ou apenas aquecer o ambiente, trazendo calor humano à nossa frieza... Que dúvidas cresçam em nós, meu amigo, e sempre nos sirvam de inspiração... Sejamos para o outro fonte mútua de colorido e criatividade!...



Foto de Anne Geddes
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007




Papai Noel existe?

Até pouco tempo as crianças acreditavam no inacreditável, papai Noel existe, diziam; eram inocentes, tontas não, apenas confiavam plenamente nas sinceras, e bem contadas, mentiras dos pais. Papai não mente, jamais, a voz era firme ao proferir a frase, não havia como não crer na real existência desse bondoso velhinho chamado Noel, vestido de vermelho, descendo por lareiras, entrando por janelas, deixando presentes sob a cama, chegando e partindo num trenó voador, cheio de luzes, coisa de sonho, vista apenas através da imaginação, no entanto era de verdade, o bom velhinho era de verdade e não fazia mal a ninguém, exceto a quem acordava ansioso, procurava e não encontrava presente algum; ele não veio, se esqueceu de mim, lágrimas surgindo da sensação de rejeição, e haja trabalho pra mãe explicar: papai Noel não pôde vir, foi isso que houve, próximo ano ele passa por aqui; ficou doente, mandou pedir que as crianças entendessem, mas, e o vizinho que ganhou um presentão, o que fazer com ele, afirmando ter visto o bom velhinho, de barba branca, parecendo algodão? Ele esqueceu mesmo de mim, mamãe, ao vizinho deu presente, você mentiu, mentiu, dizendo que ele adoeceu, não gosto mais dele, não gosto mais de você, o drama formado, a mãe inconformada, tentando consolar o filho e controlar a raiva dessa invenção mais boba de papai Noel, que dá presente aos filhos de todo o mundo, deixando crianças pobres tristes e mães em situações desconcertantes; meu filho, eu menti sim, fiz essa coisa tão feia, menti dizendo que este velho idiota existe. Mas ele não era legal e bonzinho, mamãe? Era, filho, na invenção ele era, quando o seu pai estava vivo não havia um ano sem a visita alegre do bom Noel, agora é melhor que você saiba, de verdade, papai Noel nunca existiu, mas a gente não mentia, era só brincadeira. Mamãe, e como é que a gente sabe quando alguém está mentindo ou só brincando?

Era problemático demais fazer as crianças acreditarem em papai Noel. Nessa exaltação ao bom velhinho ninguém nem lembrava de associar a data ao nascimento de um ser especial que protestava por justiça, por um mundo melhor; protestava até a morte se preciso fosse, e foi preciso, todos sabemos, a luta era de um contra muitos, mesmo um Deus cai vencido quando a injustiça é sem tamanho, porém, não se pode deixar de protestar, pra impedir que a maldade impere; talvez seja essa a maior mensagem natalina, Jesus nasceu para protestar, não ficaria quieto diante da ganância de homens que se dão como presente de Natal um irrisório aumento salarial de doze mil, ampliando ao dobro a já ampla renda de uma questionável jornada trabalhista, como ocorreu em certo país. Pra isso é que serve a existência de papai Noel? É uma situação de se perguntar, é pra isso que serve a existência do bom velhinho, ser criador de problemas?

Poucas crianças acreditam ainda nessa mentira inventada pelo mercado pra infernizar a vida de muitos pais, e do povo sofredor que tudo acata; só umas poucas ainda crêem, só umas poucas; entre estas minha filha, outro dia veio me perguntar, toda sentida, mãezinha, o Guilherme, um coleguinha dela da escola, disse que sou tonta, que é mentira sua, papai Noel não existe, é verdade, mãe, ele existe?


Charge de Diogo Salles

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007




Presente de Natal

Vou para o quarto, meu bem, não deixa as crianças irem me incomodar, quero ficar só. Está tudo bem com você? Sim, vou tentar escrever um conto pra participar de um concurso, não tenho nenhum na gaveta, como eles dizem pra gente tirá-los de lá, mas pensei em me dar um presente, seria bom ganhar, já sei até os livros que compraria com o prêmio; quem vence ganha um bônus pra comprar em qualquer livraria, não é legal? E acha que pode ganhar; você nunca escreveu, querido, esqueceu? Pequeno detalhe insignificante, meu bem, quem é que não pode escrever um conto, interessante, significativo, capaz de vencer um concurso, pelo menos uma vez na vida, só pra dar a si um presente de Natal? Não seria melhor se o prêmio fosse em dinheiro, hein, querido do meu coração, livro não enche barriga de ninguém. Não enche barriga mas enche a alma, a gente também precisa alimentar a alma pra sobreviver, bem que aquele escritor falou, não se deve dizer certas coisas a mulher, ela é estraga-prazer, não entende nada de sonhos de homem, põe logo pra baixo, só sabe desestimular. Algum escritor falou isso, foi, então deve ser um igual a você, porque escritor de verdade não vai falar uma coisa dessas sobre mulher, tem muitas delas que compram livro, sabia?

O silêncio se fez, achei melhor não levar adiante aquela conversa que não chegaria a lugar nenhum, parecendo caminhar de modo a não ter um bom desfecho pra mim; a mulher é esperta, sempre foi melhor de argumento do que eu. Falei pouco depois, não agüento ficar calado por muito tempo. Estava aqui pensando, como é que se começa um conto, o que será mais difícil de fazer, o começo ou o fim? Ela não respondeu, talvez tenha achado que não fosse pergunta e sim solilóquio; insisti, aproveitando o clima de monólogo pra divagar: uma vez eu li que o conto trata de uma situação específica, não de várias, sendo desenrolado sem pausas, ou desvios, porque o objetivo é conduzir o leitor ao desenredo com o máximo de tensão e o mínimo de descrição, portanto, nada de cenário; os dados apresentados devem ser escolhidos com o maior rigor, de modo a não deixar decrescer o interesse na história, esse passo é muito importante; a trama deve ser de tal forma elaborada que detalhe algum seja supérfluo na concepção do todo; as descrições, os diálogos, as reflexões do narrador, tudo aparecendo na justa medida para prender a atenção do leitor e não desviá-lo do centro da narração. O que acha, meu bem, será que tem alguma idéia pra me dar, hum? Dessa vez ela respondeu: quem vive lendo não sou eu, pegue o melhor conto que já leu e imite; se imitar bem ninguém vai nem perceber. Fez uma breve pausa e continuou: vá logo escrever esse conto, homem, quem sabe você ganha, descobrem que tem talento, resolvem investir em você, fica famoso, a gente sai de uma vez dessa miséria em que vive; se é pra sonhar melhor sonhar alto logo, pra ver se o desejo alcança ao menos metade do caminho. Por que não escreve que deseja se dar um presente, quem sabe têm pena e você ganha? Eu ri, tive a sorte de casar com uma mulher bem-humorada, dez anos de casamento e ela ainda tem humor pra dar. Respondi mais pra mexer com ela: vá zombando, se eu ganhar não lhe dou nenhum livro. E foi isso, camarada, por isso estou aqui hoje, recebendo o meu prêmio, me mostre um bom livro de amor pra eu levar pra mulher e me traga logo o Dom Quixote, que ainda não li, ouvi falar que todo escritor deve ter um Cervantes em casa.

Imagem ilusória - Dom Quixote/Einstein
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007


The Genius of Death (detalhe) – Antonio Canova


Turba

Meu filho nasceu prematuro, uma coisinha de nada, frágil, achei que fosse morrer; não parecia ter força pra viver não; rezei tanto, pedi a Deus por ele, meu filhinho, tão amado, desejei muito ter um menino; ele estava ali na incubadora, longe de mim, os peitos cheios de leite e ele sem poder mamar. Fiquei foi feliz quando o médico disse sossegue, já pode ficar tranqüila, seu bebê não corre mais risco. Ah, meu Deus, que alívio, pude então pegá-lo no colo, beijar, dar de mamar, cantar pra ele dormir; tinha um cheirinho bom, a pelezinha macia.

Cresceu, se meteu com gente errada, fez umas coisas que não devia; quem nunca cometeu erros nessa vida, eu me questionava, todos erramos em algum momento, ninguém está livre de errar, mas sempre foi bom, ensinei a ser do bem, ele aprendeu isso, era inocente, não soube dizer não, se envolveu com amigo ruim, andou se drogando, se metendo em briga, quase foi preso, respondeu a processo por agressão, ficou com o nome sujo. Quando soube só faltei morrer; fiz de tudo pra ele se afastar desses amigos, deixar as drogas, foi muito difícil. Me prometeu mudar, acreditei, ajudei meu filho como pude. Mãe, me ajude, sem você não vou conseguir, me disse. Eu não sabia que ele se achava fraco, ingênuo demais, disse a mim que os amigos o chamavam de ingênuo, filhinho da mamãe, garoto mimado; disseram que ele nunca ia ser homem, macho de verdade, destemido, meu filho se sentia fraco e eu não sabia.

Era um menino tão bom, doce, meigo; fizeram ele achar que ser bom é ruim; meu filho quis ser outro, deixar de ser bom, coisa boa é ser ruim nesse mundo, quem é bom só faz sofrer, chegou a me dizer isso; fiquei triste ao ouvir meu filho dizer isso, me culpando por ser bom, por ter feito dele uma pessoa do bem; disse que não o ensinei a se defender, minha nossa senhora, em que mundo estamos, pensei, desolada com a situação. O que eu podia dizer ao meu filho, meu Deus, o mundo estava tratando ele mal por ser bom; eu sabia que o mundo é assim, não preparei meu filho pra vida, os amigos o estavam pervertendo, ser bom é difícil, ele tinha razão, muito mais fácil ser ruim.

Roguei aos céus pedindo forças e palavras sábias pra livrar meu filho daquilo em que estava metido, dúvidas, angústias, indefinições, não sabia mais quem era, o que desejava ser, não sabia mais. Abracei meu filho, sem saber o que dizer, o que fazer; ele me empurrou, não queria mais amar, amor deixa o homem fraco, gritou pra mim, começou a chorar, não quero ser fraco, mãe, não quero ser fraco. Desde quando amor é fraqueza, meu Deus, em que mundo estamos, eu perguntava numa indignação tão forte, meu filho um rapaz bom, vivendo aquilo tudo, se sentindo desprotegido; eu pensava que era boa mãe, ensinei tudo de bom pra ele, a respeitar os outros, não fazer mal a ninguém, ele me disse que isso não servia pra nada, só fazia com que não soubesse se defender; fizeram meu filho sofrer por ser bom, doce, meigo, me disse que ninguém o admirava, só o achavam fraco; os admirados eram fortes, cínicos, valentões, andavam com um monte de mulheres, infiéis; estava sentido, infeliz, queria ser outro, um desses canalhas egoístas que não pensam em ninguém, no sofrimento dos outros.

Foi difícil, difícil fazer meu filho perceber a deturpação de tudo isso; na prática a vida é assim, ele estava certo, eu sabia, todos sabemos, o mundo é um horror. Foi uma luta, transformaram meu filho e depois o acusaram; zombaram dele por ser bom, desprezaram-no por ser mau; percebeu a contradição humana, a incoerência dos homens; devia escolher, nenhum caminho o livraria de sentir dor, ele não deixaria de sofrer. Escolheu o que pra mim era a salvação, eu ajudei, poucas pessoas ajudaram; ele sofreu, eu vi o quanto sofreu; estava conseguindo, quando aquela coisa horrível aconteceu já havia mudado, já era de novo bom, tinha voltado a ter esperança, a acreditar na força do bem, no poder da suavidade, na importância de ser educado, respeitador, voltou a ter consideração pelas pessoas, nada é maior e nem melhor do que os bons sentimentos, me disse emocionado; era outra vez o filho que eu criei, a quem ensinei tudo de bom.

Ele era tudo pra mim, meu único filho, não merecia, não merecia ter vivido aquele horror, a menina foi estuprada e morta; morava em nossa rua, tinha dez anos, linda, inteligente, jeito meigo igual ao dele; meu filho gostava de conversar com ela, muitos no bairro a conheciam, brincava na praça, eu conhecia, vi os dois conversarem várias vezes, todos viam os dois na praça, conversando, gostava dele, ajudou meu filho, conversavam, fazia bem a ele, me disse que ela se aproximava, pedia pra contar estória, falava da vida dela, ele falava da dele; ela fazia bem ao meu filho, ele me disse isso, devia fazer bem a ela também. As pessoas estranhavam aquela amizade, mas eu não. A menina apareceu morta, nua, tinha sido estuprada, causou comoção no bairro.

Meu filho tinha uma entrevista marcada no dia seguinte ao que soubemos da tragédia, não podia deixar de ir, desci com ele, apreensiva, desejei boa sorte ao me despedir, fiquei olhando ele seguir pra pegar o ônibus, havia muita gente em frente à casa da menina, as pessoas partiram pra cima dele, um monte de gente, batendo, uma turba enfurecida, meu filho, gritei, meu filho caiu, batiam, batiam, ele tentando se defender com as mãos, batiam, batiam, batiam, a dor impedia a defesa, ele se encolhia, os braços deixando de proteger, batiam, batiam, batiam, batiam, as mãos não mais tentavam proteger o corpo, continuaram batendo, chutando, com uma força tremenda, meu filho parado, cheio de sangue, ainda assim batiam, ele já morto, continuaram batendo, foi horrível, eu gritava parem, pelo amor de Deus, parem, o tempo todo eu gritei, não façam isso, é meu filho, um inocente, meu filho é inocente, não foi ele, meu Deus, não foi ele, não permita que façam isso, ó senhor, ninguém parava, ninguém parou de bater, vi tudo, tudo, me agarraram pra eu não salvá-lo, ou não morrer com ele, porque teriam que me matar também; não pude defender meu filho, nem me deixaram morrer com ele, nunca mais vou esquecer, nunca vai parar de doer; eu gritava Jesus salve meu filho, diz pra essa gente não matá-lo, lembra a cada um que eles têm pecados, impede essa chacina, mesmo que meu filho fosse um criminoso, aquilo nunca deveria acontecer, foi cruel demais, uma multidão de gente matando meu filho, se achando no direito de matar, meu Deus, nunca vou esquecer, não vai parar de doer nunca, o filho que eu gerei, que trouxe ao mundo, criei com amor, estava se recuperando, não se drogava mais, voltou pros estudos, queria arrumar emprego, saiu pra ver um, a gente tão feliz, veio aquele monte de gente em cima dele, acabaram com tudo.

Quando falei da morte da menina ele chorou, perguntou como alguém podia ter feito uma coisa dessas com ela, tão boa, inocente; não quis ir ver a namorada àquela noite, ligou desmarcando; estava namorando há algumas semanas, ou estava em casa ou na escola ou na casa dela; os professores confirmaram, ele sempre comparecia, assistia às aulas todas; a namorada confirmou, nos horários em que não esteve em casa estava com ela, não podia ter sido ele, meu filho era bom, teria arrumado o emprego se não tivessem feito aquilo, estaria comigo hoje, feliz, acreditando no bem, na bondade. Depois a polícia descobriu o assassino, foi preso, confessou o que fez, contou como aconteceu, esclareceu tudo; uma testemunha o viu com a menina, comprando doces pra ela. Era inocente, meu filho era inocente.
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domingo, 16 de dezembro de 2007


Pra quem quer me conhecer, esta sou eu, quando criança,
num esboço inacabado, do qual gosto muito (feito por mim).



METADE
(Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda, ainda que tristeza.
Que [o homem] que eu amo
seja pra sempre amado, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor.
Apenas respeitadas, como a única coisa que resta [a uma pessoa]
inundada de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso...
e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesma se torne ao menos suportável.
E que o espelho reflita em meu rosto
o doce sorriso que eu lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba,
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
[É que metade de mim é o que eu escrevo...
mas a outra metade é o leitor.]

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor
e a outra metade... também.





Esse poema é uma das coisas que eu gostaria de ter escrito, porque me fala tanto. Faria questão de dizer: fui eu que fiz, se ele fosse meu. Sempre gostei dele, desde o primeiro momento em que o escutei, com a música ao fundo, me identifiquei no mesmo instante em que ouvia as palavras, as frases sendo ditas, uma após outra, gritando em meu peito, podia ter escrito isso.
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007




Partir ou não partir?

A dúvida de partir ou não atrás dos sonhos me imobilizava. Não decidia por lançar-me ao desconhecido, imprevisto, desafiante espaço dos desejos, nem por ficar no que já conhecia de cor, ambientes com aparência previsível, tranqüila, familiar, da minha casa e do emprego que consegui sem grandes dificuldades.

Quando criança, tive tudo o que pode almejar o coração de um menino; a felicidade foi grande, lembro bem, os cuidados comigo imensos, todos muito dedicados, cobrindo-me com todo tipo de mimos, até um cão me foi permitido ter; deram-me de presente em um aniversário, nomeei-lhe Veludo; gostava de fazer-lhe carinhos, passando a mão em seus pêlos, companheiro por muitos anos; tenho muitas fotos com ele, amigo fiel até morrer.

Também me levavam pra ver a garrafa de pinga sempre que eu pedia. Morávamos em Vitória, pequena cidade do interior pernambucano, onde há uma fábrica de cachaça com uma imensa garrafa que se vê de longe – deve ser uma torre de destilação alcoólica, à qual acrescentaram um gargalo pra dar forma ao recipiente, pintaram um rótulo, uma tampa, e eu me encantei pela garrafa de proporções descomunais no dia em que a vi pela primeira vez; quis ver de novo, várias vezes, pedia e me levavam. Gostava de ver a garrafa de cachaça, não por ser de cachaça, me admirava ver uma daquele tamanho. Gostei dela até o dia em que meus pais sofreram um acidente na frente da fábrica, chocando-se com um caminhão de carga; sobrevivi por milagre, passei a morar com meus avós, na mesma rua, só mudei de casa, não estranhei, já vivia mais lá antes da tragédia.

Tempos depois nos mudamos pra Recife, viajamos num ônibus grande, as poltronas todas ocupadas; vovô havia morrido, estávamos tristes, não falamos nada durante todo o percurso. Minha avó pretendia que eu viesse estudar aqui, aproveitou essa intenção e veio junto, não tinha mais por que permanecer em Vitória; vendeu o que tinha pra vender, transferiu a aposentadoria e viemos morar num apartamento comprado há mais de um ano por meu avô, que me pediu pra ficar mais um pouco com eles, só mais um ano não prejudicaria os estudos; convenceu a mim e à vovó, alugou o apartamento e passamos o seu último ano de vida juntos.

Hoje me interrogo, pode alguém se fartar de ser querido? O mundo parece fazer crer que devo incomodar-me com a afeição de minha avó; ela criou-me, afetuosa, sempre muito boa, abundante em carinhos, nunca quis afastar-me dela. E por que deveria querer?

Lá fora um mundo amplo me aguardava, diziam os amigos, mas eu gostava da manta macia com que vovó me cobria, não queria livrar-me dos seus laços, até porque ela não me prendia; nunca me impediu as saídas, os passeios, as viagens; não me controlava os passos, as horas; só impunha algumas condições; eu aceitava sem problemas, em respeito a ela, em amor a mim; era imprescindível que temesse, os novos tempos mostram-se desdenhosos, cínicos, perversos mesmo; cuidados fazem-se necessários, ela dizia; importantíssimo que me desse conselhos, me orientasse, cobrasse boas ações de mim; nem sempre ser ameno exprime uma atitude de adulação, explicava-me com gestos ternos, flexível em seus valores, olhando-me em sua eterna mansidão, indicando caminhos sem imposições. Abominava qualquer indício de cinismo, e me falava: ironia é suportável, fruto de espíritos aguçados, resulta de inteligências sutis, tem aproximação com humor; cinismo não, é resultado de perversidade, fruto amargo, azedo, travoso, lembra crueldade, não há como suportar.

Os amigos tentavam corromper-me, acenavam com um universo fascinante de excessos e orgias, e eu só querendo o mundinho pequeno do meu quarto, transar apenas com a Martinha, manter um jeito de ser que todos chamam caretice, não trair, não beber, não pegar uma droga maneira, oferecida sem maldade por algum brother: toma aí, mano, é de coração, prova, cara, aproveita, conhece aí, tô te dando; agradeço irmão, valeu a oferta, prefiro não conhecer; recusava, irritava os amigos, babaca, me jogavam na cara a palavra cheia de ira, e de inveja, por eu não ceder aos apelos da irmandade, por resistir a me igualar a todos.

Também sentia que invejavam minha liberdade pra transar em casa, minha vó permitia, desde que fosse namorada, coisa de respeito, com boa intenção de minha parte, a gente se cuidando, lembrando que ela estava a dormir a poucos metros, não se incomodava, ficava até tranqüila me tendo em segurança. Ninguém entendia como uma senhora nascida e crescida numa pequena cidade do interior do Nordeste pudesse ser assim, nem eu; a Martinha vez ou outra comentava que minha vó não existia.

Pra mim, a vida só não tinha sentido lá fora; em casa não a via como absurdo. Gostava ainda do trabalho; fiz faculdade, arranjei emprego, minhas funções me absorviam, me agradavam, mas havia um quê de inadaptação; mexia comigo um certo instinto de isolamento, de tempo em tempo entrava em ação o meu gênio solitário, contemplativo, pondo o coração angustiado, ansioso pelo fim do dia, pelo silêncio do quarto, por escrever pra conseguir suportar a mesquinhez do mundo, a rapidez da mudança de sentimentos tão presente na vida.

Não demorei a perceber que as leis lá fora são um conjunto de convenções sufocantes e que a linguagem não se presta a dizer o que de fato importa, por estar submetida às regras da etiqueta, do bom-tom, das falsidades, conversas vazias, incapazes de pôr a nu almas e de revelarem a complexidade dos homens, que utilizam as palavras sem na verdade servirem-se delas, ficando sempre algo por dizer; o mais importante não é falado, explicitado nas relações, devendo ser concluído a partir do subentendido, da alusão, do não dito; as pessoas aprendem assim a pensar que as suas deduções são a verdade. O que de fato importa serve-se do silêncio, aparecendo em camadas; não de vez, inteiro, límpido.

Vi muito cedo a fragilidade humana diante das situações cotidianas e dos laços afetivos que deveriam nos tornar mais fortes, mesmo sem poder compreender, nomear dessa forma; de certo modo as perdas me falavam dessa fragilidade, de que a natureza dos homens e do mundo é dinâmica, mutável; de que o princípio do imprevisto é inerente à vida, pois mesmo sabendo que viver é caminhar para a morte, não se sabe quando, onde, como se encontrará com ela.

A pior visão, contudo, foi a de como as pessoas são solitárias, como amam sem amor, vivendo no engano de julgarem-se felizes. Não foi fácil constatar que um homem amável, carinhoso, é logo desacreditado. O confronto com o mundo muitas vezes me fez pensar na morte. Nunca pude entender que alguém fosse intoleravelmente bom; intolerável por ser bom, isso sempre me foi inconcebível; o que é bom deve ser apreciável; aceitavelmente mau eu entendia; aceitável apesar de mau, tudo bem, nada ou ninguém é de todo ou em tudo bom.

As divagações me levaram a querer ser escritor em vez de morrer, ou antes de morrer. Senti que precisava viver mais lá fora para ter o que transformar em palavras; viver entre homens diferentes de mim, observá-los, capturá-los na ponta da caneta, esboçá-los no papel sem traços ou luzes, pintando-os com o único recurso da imaginação, apenas evocando imagens, perfis, feições. Foi quando me surgiu a dúvida de partir ou não atrás dos sonhos, deixar o lar, empreender uma aventura incerta, abandonar o que a mim parecia seguro, em troca do quê?

Nunca fui ruim o suficiente para ser cruel, jamais venceria lá fora, mas parti; não sem antes conversar com a minha avó; não iria sem prepará-la, sem um grande abraço de despedida, ou sem a garantia de manter contato e promessas de volta, mesmo que apenas em visita. Os sonhos foram mais fortes do que a vontade de segurança, lancei-me ao desconhecido, imprevisível, desafiante espaço dos desejos.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007


Foto de Fabrizio Ferri (detalhe)


Sem acordo

(Para Bárbara, a quem amo muito,
com todo o meu carinho.
Que o seu crescer seja fácil!)


- Minha filha, você tem só quinze anos, já disse que não vai, não insista.

- Mas papai, eu quero ir, todos os meus amigos vão...

- Ponho você de castigo se pedir mais uma vez!

- Que saco! O que vou dizer à turma?

- Que o seu pai não lhe deixou ir.

- Vão me achar uma boba, filhinha de papai, que não pode sair de casa...

- É minha filhinha sim, disse muito bem. Quem cuida sou eu, quem paga as contas pra você ser assim como os seus amigos gostam sou eu, se quiser minha filha em casa me fazendo companhia tenho todo direito, mas bem sabe que não a proíbo de sair de casa, não seja injusta, a proíbo de ir a certos lugares, não deixo mesmo.

- Porque é careta, atrasado.

- Acha que a vida é só aventura? Prazer, prazer, os jovens de hoje querem estar sempre sentindo prazer, mas prazer se esvai, minha filha, alguns prazeres não duram nada, se acabam rapidinho, mal começam e já se encerram... Quero que busque prazeres duradouros, estes sim lhe farão bem, lhe servirão pro resto da vida.

- Mas pai, só essa vez...

- Nem essa vez nem nunca, não vou permitir uma coisa dessas. Você não tem argumento pra me convencer, fica só pedindo e reclamando sem apresentar um motivo que possa me fazer mudar de opinião, deixá-la ir, porque não há realmente nenhuma razão que possa me fazer permitir que vá. Depois me agradecerá, por tomar conta bem de você. Agora vá pro seu quarto, não há mais o que conversar. E não vá ficar falando bobagem no celular!...
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007



NO CAMINHO HÁ MUITAS PEDRAS

Nos percalços do caminho
é de sorte
quem encontra apenas uma pedra.
Há várias, não uma só,
muitas vezes imensas
as pedras no meio da estrada,
paralisando a jornada,
e é enorme a perplexidade
de encontrar em alta caminhada
uma pedra inesperada.


Esse poema, não preciso nem falar, foi feito a partir do conhecido “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Sei que é perigoso fazer isso, o original possui uma referência muito forte, mas a mim ele falou assim, interpretei-o desse modo, e posso fazê-lo, sou aprendiz; acho que pra ter esses privilégios não vou querer deixar nunca de ser... Mas, um dia é preciso crescer, sei disso, adquirir maturidade é necessário, assumir que não se é mais criança e não se tem mais o direito de fazer bobagens, ou ter a consciência de que não será mais compreendido por fazê-las... O mundo adulto não admite infantilidades... E alguns crescem muito rápido em alguns sentidos, sem crescer na mesma velocidade em outros; nem sempre o desenvolvimento emocional acompanha o valorizado racional, ideal do ser humano, emoção e razão caminhando de mãos dadas, será que ainda haveria susto?... Muitos gostam de susto, de surpresas, que só a emoção proporciona, entretanto, se alguém descobrir a fórmula de pôr na mesma reta a emoção e a razão, uma segurando a outra, guiando, apoiando, dando bons conselhos para não mais haver erros na jornada da vida, por favor, me ensina, às vezes dói muito ser emotiva...
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sábado, 8 de dezembro de 2007



Nesse mês resolvi deixar a Piauí em paz, porque não gostei muito da frase sugerida no mês passado: Genalva, vem me buscar que eu estou odiando (mas adorei a idéia de no próximo ano tentar fazer um conto em chinês, ou sobre chineses); achei que só conseguiria fazer contos odiosos, incapazes de seduzir os leitores, e uma vez ou outra a gente deve pensar neles, agradá-los, considerá-los, fazê-los sentir-se imprescindíveis, escrevendo especialmente pra eles, com o único intuito de satisfazê-los, como dizem os manuais, os professores, as regras sugeridas a quem escreve, o conselho é um só: seduza os leitores, seduza os leitores! Como se seduzir leitor fosse fácil, igual paquerar, e eu lá sei o que o leitor quer?! Ninguém ensina a seduzir leitor, só nos mandam fazer isso, senão nos abandonam, o que é fatal pra quem já tem poucos, não posso me dar ao luxo de escrever apenas o que quero, sem ligar a mínima pra opinião alheia; o problema é que me sinto bastante intimista nesse final de ano, não sei se conseguirei agradar alguém, estou preferindo ser agradada, cuidada, considerada, do que fazer isso pelos outros. Mas como não chamo ninguém pra vir aqui, as pessoas vêm se quiserem, não sinto muita culpa em criar algo apenas medíocre, realizando o que está ao meu alcance no dia.

Não tenho dúvidas de que as pessoas que atendo não me reconheceriam em meus escritos, e o que eu diria se alguém me descobrisse aqui? Aquela lá é uma homônima? Há muita Cristina Sampaio no mundo, não apenas no Brasil, posso dizer, mas os olhos são iguais, a pessoa insistiria nas coincidências, e começo a me arrepender de ter exposto o meu olhar nesse blog. Algumas profissões são incompatíveis entre si, ou são com certos hábitos, já que para muitos escrever não é profissão; no entanto, algum dia os meus atendidos terão que se deparar com a realidade: “A senhora é gente como a gente”? É o que parece... (Senhora sim, as pessoas que eu atendo me chamam de senhora, com todo o respeito que mereço enquanto psicóloga; é o que estou dizendo, aqui ninguém me reconheceria). Também tem feridas e chora, igual a nós? As perguntas continuariam, numa imensa curiosidade, vocês não têm noção do que é isso, e eu teria que responder: se é igual não sei, mas tenho feridas e choro, sim, não posso negar. Ai, ai, ai, o que pensariam de mim? Não é sensata, forte, equilibrada, como se mostra pra nós? E talvez eu gaguejasse pra responder: também sou, entendam, não é que não seja, sou, não posso ser outra coisa com vocês, sou o que precisam que eu seja, se as palavras não ficassem pulando dentro de mim, dando pinote com força pra me importunarem a ponto de conseguirem virar texto, poderia viver sem dar ouvidos a elas, não daria nenhuma atenção às inspirações, juro... Ó, caríssimos leitores, se contentem com meus exercícios, pelo menos por enquanto, é tudo que posso lhes dar... Sem leitores posso viver, mas sem pessoas pra atender não sei o que seria de mim...

Mesmo com todos os conflitos, decidi ir em frente, seguir os estímulos do Portal, fazer exercícios mais urbanos, pra tentar seguir adiante com alguma diversidade, escrever um conto baseado no trecho do poema “Pela rua”, de Ferreira Gullar: A cidade é grande / tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só, pois satisfaz à minha necessidade de solidão no momento, inspirada pela ânsia e pelo receio em ralação ao que o próximo ano me reserva.






Uma só

Tinha um sonho, repetido, de morar numa grande cidade, São Paulo, Rio, Belo Horizonte. Ser artista, múltipla, me exibindo pra ser admirada. Cantar músicas de amor em shows intimistas, a platéia encantada, do início ao final aplaudindo, gostando de me ouvir, aprovando o repertório especialmente feito pra mim; variado, diverso. Alguém faria, conheceria alguém pra fazer pra mim.

Meu pai tentava me demover da idéia de partir, dava conselhos, tudo inútil; eu mal escutava o que ele dizia sobre a vida fora de casa; se ouvisse, como desejava, as dúvidas me paralisariam, nunca enfrentaria o mundo. Queria cruzar mares, ir longe, alcançar outros campos de atuação, me libertar da rotina, ser mais eu, sem ninguém me dizendo o que fazer, dando ordens, lições ultrapassadas. Soltar a voz por aí, era esse o meu desejo, ficar conhecida em lugares estranhos. Por que e pra quê eu não sabia, talvez por ter aprendido que é isso o que todos devem sonhar.

Passei anos me preparando, ensaiando, juntando grana em showzinhos pequenos, perdendo o meu talento em bares pobres, tristes, festinhas de amigos que nem me valorizavam. O sonho sustentava a minha garra, me alimentava o ânimo de continuar cantando, fortalecia o desejo de seguir em frente.

Sinto-me nada nesta cidade, grande, quatro milhões de habitantes e eu uma ínfima parte, desconhecida de todos, sozinha, sem amigos, sem ninguém que me ajude. Cada um fechado em seu mundo, pequeno, mesquinho, vazio. Eu? Sou uma só entre tantos.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007


Le Modele Rouge – René Magritte


ISTO
(Fernando Pessoa)

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa-coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


De que modo fazer com que a arte seja coisa pra todos, compreendida, apreciada. Em literatura podemos entender sentidos mesmo que a escrita não esteja no padrão das regras gramaticais, mas é preciso nos permitir uma outra leitura, outra atenção às palavras, frases, sinais de pontuação. Do mesmo modo ocorre com outras formas de arte: é necessário sensibilizar a percepção, aguçar a imaginação, pra ser tocado pela obra, pelo artista. É preciso se deixar afetar, sentir, não apenas observar. É importante tentar prolongar as impressões, mantê-las em si.

A arte tem o poder de nos modificar intensamente, porque uma composição qualquer artística é única, diferente dos produtos da indústria, feitos em série, inúmeros iguais; também diferente do artesanato, apesar de feito pelas mãos dos homens, este é reproduzido, ainda que em menor escala, não é único, como a obra de arte, a esta exige-se uma diferença de tudo o mais que existe, que nos deixe a sensação de “não há nada igual a isso”, e que muitas e muitas vezes pode nos levar a um estado de êxtase, “oh, não há nada igual a isso, não há!”. Realmente incrível, o poder da arte!

O êxtase vem não necessariamente do belo, percebemos isso, mesmo a beleza sendo mais atraente. A pintura e a música têm muito mais poder, nesse sentido, são mais extasiantes, ao meu ver, do que a literatura, apesar desta ter mais poder de influência. E sempre achei que a obra é mais importante do que o artista, é ela que fica, quando fica, boa ou ruim, os outros avaliarão isso, destruirão o que é ruim, se assim quiserem; é um risco que todo criador corre, de criar e ser não o que querem e esperam dos artistas que surgem. O ser humano é cheio de defeitos, não há como escapar disso; criar é uma tentativa de se redimir das imperfeições, porque nos exigem demais nessa vida e não conseguimos ser o que esperam de nós, falhamos inúmeras vezes, acertamos outras tantas, mas quem se importa? Os defeitos são muito mais visíveis... Ou será que preferimos ver os defeitos?... Será que alguma vez na História da humanidade o ser humano se importou com o outro?... Caso a resposta seja sim, por que, então, os registros são tão sangrentos?...
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007


Caricatura de Hugo Chávez - Diogo Salles

Derrota

As exigências mundanas me exaurem... Só elas pra me fazerem chamar por Deus em público... E estava eu muito bem em meu descanso, cheia de preguiça, lambendo as minhas feridas literárias do jeito que os gatos fazem com as suas, quando me animei com uma boa notícia: “Hugo Chávez perde em Referendo sobre perpetuação no poder”. Parece que Deus existe, pois me permitiu voltar, mandando logo uma inspiração das boas, pra eu ter esperança ao menos pelo restante do ano.

Mas o “não” obteve 50,7% dos votos e o sim 49,29%, segundo os resultados divulgados. Fico impressionada como as pessoas não gostam de liberdade; definitivamente não entendo o ser humano... É certo que às vezes não entendo nem a mim mesma, talvez por isso eu escreva, se me entendesse não precisaria disso.

Podíamos ser menos complexos, mais rasos, de vez em quando (sempre não, que ser complexo tem seu lado bom), pra conseguirmos nos compreender melhor, com alguma facilidade, sem dor, sofrimento, cansaço profundo... Sem raiva, desilusão, essas coisas todas complicadas, ruins de sentir... A vida deveria ser só encanto, maravilha, paz, amor, comunhão, pieguice nada, gente, isso é bom, gostar dessas coisas faz bem, transforma a nossa vida pra melhor. Posso apostar que os que votaram contra Chávez acreditam nas coisas boas da vida! E viva à democracia! Viva à liberdade!! Viva à tudo que é bom na vida!!!
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domingo, 2 de dezembro de 2007


Cat nap II – David Mcenery


Esse blog cansou de se exercitar. Está descansando por uns dias. Em breve retornará às atividades. Descansinho rápido, tipo cochilo, espreguiçamento, pra recuperar a energia perdida, ou melhor, desprendida, na entrega à escrita, isso desgasta, exige um bocado da gente, e haja criatividade.

Deus permita que eu volte, que não me abandone a um sono profundo, anônimo, reconfortante, me esquecendo completamente da vida, dos desejos, das exigências mundanas, ai, que cansaço...
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