quinta-feira, 1 de dezembro de 2011




Monstro?

Ele sabe que sempre o preservarei, mesmo que o pinte um monstro. Por isso o amo tão intensamente, porque compreende os meus desvarios, não se incomoda com minhas invenções malucas ou maquiavélicas, apenas me olha bem dentro do olho quando desconfia que atribuí a ele uma forma monstruosa, perscrutando o meu interior para descobrir se o vi realmente de modo deformado. Fico com vergonha quando me olha assim, uma vez falei pra ele, que respondeu: não se encabule por fazer arte. Foi o modo dele me dizer que, às vezes, sou arteira. Será que vê em mim uma artista? Será que me considera talentosa? Nunca me disse. Nunca perguntei a ele. Tento adivinhar suas expressões ao observar o que produzo, ele é introspectivo, guarda pra si as impressões, me põe maluca, a curiosidade me corrói, mas não me deixa adentrar seu pensamento, saber o que pensa a respeito do que faço. Apenas diz: continue, há muito o que fazer. Será que acha que assim me incentiva a buscar perfeição? O que exatamente significa perfeito em arte? Um lindo monstro, um dia me disse, esse ficou muito bom. Magnífico, eu queria que ele dissesse: esse ficou magnífico. Monstro, sem coração, quer me deixar maluca com a tentativa de alcançar perfeição, da próxima vez o farei mais monstruoso ainda, pensei, sentida por ele ser contido nos elogios. E me empenhei a pintá-lo bem monstrengo. Mas nessa busca doida por ser uma artista perfeita, às vezes me pergunto: será que eu é que sou um monstrinho?


_________________________