domingo, 29 de janeiro de 2012




Liberta

Ele me deu a liberdade ao se afastar, sem emitir conselhos. Assuma a sua autoridade, foi como se me dissesse, ao se distanciar, em silêncio. Exerça a autonomia plena em sua autoria. Não se limite por coisa alguma que constrange a vida. Apurando a percepção, tentei ouvi-lo dizer, totalmente calado: só ao criar você pode exercer plenamente sua condição de liberta, sem amarras, ou impedimentos. Somente na arte você pode ter plena satisfação. Não tema. Faça com todo fervor do seu coração, com toda amplitude da imaginação, deixe o pensamento voar em todas as direções, sem medo. Foi como se me dissesse: entendo a sua necessidade de inventar outras vidas, outros mundos, outras possibilidades de escrever histórias humanas, profundas ou banais.

Deu-me a liberdade, como se dissesse: o que faz não me atinge, devido à certeza que tenho da sua não intenção de prejudicar-me. Apenas faça o que lhe vem à cabeça, sem preocupações restritivas. Não contenha a criatividade, por nada nesse mundo, não abra mão do potencial de ser feliz. Foi como se me dissesse, com carinho: percebo a felicidade que você sente quando cria, mesmo a imagem mais boba do ser humano, e tento compreender o que sente ao fazer algo delicado, singelo, ou tenso, mas profundamente significativo aos corações humanos.

Foi como se o ouvisse dizer: não estarei por perto para tolher suas criações, porque a amo mais que tudo que eu possa amar, e a quero livre, com independência para fazer o que a sua alma pede, sem qualquer cerceamento. Seja um pássaro liberto no que escreve, não se preocupe com o julgamento de quem a ama. Pensei ter lido em seu olhar, acolhedor: você é pra mim o rosto sereno que observo no dia a dia, não as diversas imagens, egoístas, terríveis, que crava em sua escrita. Nada ameaça a nossa vida, sempre estarei ao seu lado, só não quero limitá-la, impedir que imagine o que pode ser visto como indevido, por medo de perder um amor que tem tudo para permanecer. Com a maior candura, deu-me a liberdade para amá-lo em plenitude, ao me libertar do medo de ser julgada moralmente pelo teor das minhas invenções.
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