Perversidade
Via meu irmão se divertir com a baladeira, mirar com gosto os bichos de Deus, não errava uma pedrada, seguro da pontaria, peguei, gritava e corria até a presa atingida de forma fatal. Eu pensava: nunca vou ser malvado assim. Às vezes ele ficava olhando o bicho se debater, demorando a morrer, eu sentia muita pena, mas nada podia dizer, por ser pequeno, franzino, tinha medo dele se voltar contra mim. Uma vez adquiri coragem, falei que aquilo era uma perversidade, ele me olhou com seus olhos vidrados, pensativo, depois pegou uma pedra, grande, estendeu-me o braço, disse com rispidez para eu aliviar o sofrimento que tanto me incomodava. Não me movi. Não pude fazer qualquer movimento. Ele riu, zombou: fracote, e esmagou o pássaro agonizante. Senti o vômito chegar à garganta, engoli o engulho. Senti-me realmente um fracote, ele percebeu, eu era incapaz de machucar um bichinho, mesmo sendo necessário, para causar-lhe alívio, eu não agiria, se encontrasse um passarinho doente, morrendo, eu o deixaria agonizar aos poucos, como se o sofrimento deixasse de existir ao me afastar da cena. Senti-me um covarde. Meu irmão poria um fim à dor de um bichinho condenado a morrer aos poucos, eu não. Ele mostrou-me assim que eu não era tão nobre como pensava, ou ele tão perverso como eu visualizava.
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